Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa
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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Versos de Fernando Pessoa no seu aniversário

Fernando Pessoa em 1928

No dia 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o poeta Fernando Pessoa, um poeta que foi "muitos poetas". Eu explico.

Recordamo-lo com a primeira estrofe de um soneto, onde fala do menino que foi e do adulto de 45 anos que nesse momento era.

Estes versos são especialmente dedicados para o Alberto, da turma de 2º A. Ele sabe porquê. E já agora, esta tirinha de Beto, "Morro de medo".


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.


O menino Fernando Pessoa em 1891, com três anos



segunda-feira, 3 de junho de 2019

Para os que não se lembram do significado de "lembrar-se"



De lembrar-se, e também não do antônimo esquecer-se... Um poemazinho de Fernando Pessoa. Com uma pinga de humor.

Este nó no lenço é
Para eu me lembrar, e até
Não me esquecer de lembrar…
Tem vantagem, já se vê.
Já sei que me hei-de lembrar,
Que tenho que me lembrar,
Mas que me lembrar de quê?



quarta-feira, 13 de junho de 2018

"Dá dois pulos de contente..." (Fernando Pessoa)

Fotografia de Marluza


Pulo é "ação de pular, salto". Leiam este poema de Fernando Pessoa, há muitos pulos, muitos saltos. Hoje recordamos que Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888. Tão grande poeta...


Dá dois pulos de contente,
Dá dois pulos a pular,
Dá dois pulos
Dá dois pulos
Dá dois pulos pelo ar

Pim, pim, pim, pim, pim, pim
Pim, pim, pim, pim, pim, pá
Quando a gente não se avista
Quando a gente não se avista
A gente não se avista
É a única coisa que há.

Mas pula, pula
Pula enquanto cá não estou
Antes tu pules,
Pules, pules, pules, pules,
Que sejas quem já pulou.

Pim, pim, pim, pim,
Pim, pim, pim, pá
Pula lá que quando eu vir
Também eu pularei cá.

Pula que pá
Pula que pim,
Dá dois pulos de contente,
Dá dois pulos com a gente
Que para isso é que eu vim.

Fernando Pessoa 

(Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006)






quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Viajar! Perder países!" (Fernando Pessoa)


    Viajar! Perder países!
    Ser outro constantemente,
    Por a alma não ter raízes
    De viver de ver somente!
    Não pertencer nem a mim!
    Ir em frente, ir a seguir
    A ausência de ter um fim,
    E a ânsia de o conseguir!

    Viajar assim é viagem.
    Mas faço-o sem ter de meu
    Mais que o sonho da passagem.
    O resto é só terra e céu.

    Fernando Pessoa, 20-9-1933




segunda-feira, 13 de junho de 2016

Fernando Pessoa também foi criança



O poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) foi também criança, claro, como todos os adultos, meninos e meninas. Aqui, podemos ver como é que ele era quando tinha apenas 3 anos, quando ainda vivia em Lisboa, porque depois, coisas da vida, ele viveu durante 9 anos em Durban, na África do Sul, antes de regressar para Portugal, de onde nunca mais saiu.

Hoje, dia 13 de junho, recordamos que Fernando Pessoa nasceu num dia 13 de junho de 1888, e fazemo-lo com uns versos do seu heterónimo Alberto Caeiro, "um poeta que ele inventou", podíamos dizer para que vocês compreendam.


Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...


Alberto Caeiro, Poema XIV do seu livro O Guardador de Rebanhos


segunda-feira, 18 de abril de 2016

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia..." (Alberto Caeiro / Fernando Pessoa)



Este é o poema XX de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta português Fernando Pessoa. E ouvimo-lo dito por uma cantora brasileira, Maria Bethânia. Espero que gostem.


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quando as crianças brincam (Fernando Pessoa)



Este poema de Fernando Pessoa já foi publicado aqui há vários anos, mas achei este vídeo com estes versos a fazer parte de uma canção.


Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

"Um, dois, três... " (Fernando Pessoa)

Pessoa numa caricatura de William Medeiros


O poeta português Fernando Pessoa escreveu muita poesia para crianças porque ele tinha vários sobrinhos e gostava muito de brincar com eles.


 [Um, dois, três...]

Um, dois, três...
Pé ante pé...
O que é?
Há só luar
Arvoredo
Um homem a medo
Um dois três
A passar.

Um, dois, três
Outra vez
Pé ante pé
Vai, vêm, vão...
Não virei, por causa do mês,
Apesar de tudo sou marquês...
Um, dois, três
Quem é?
Quem são?




sábado, 13 de junho de 2015

Uma escultura de Fernando Pessoa e uns versos dele



Esta grande escultura intitula-se Hommage a Fernando Pessoa, e é obra do artista belga Jean-Michel Folon. Tem cerca de 4 m de altura e fica em Lisboa, no Largo de S. Carlos, em frente à casa onde nasceu a 13 de junho de 1888 o poeta português Fernando Pessoa. Isso foi hoje há 127 anos (cento e vinte e sete anos)!

E como falar de um poeta sem ler alguns versos dele, como estes que Pessoa escreveu para uma das suas sobrinhas?


Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.




(Fotografia de Pedro Ribeiro Simões)


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os primeiros versos de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, menino


No passado domingo foi o Dia da Mãe. Vejam o poemazinho que escreveu o grande poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935) à sua mãe quando ele tinha apenas 7 anos.


À minha querida mamã

Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.

26-7-1895


sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Havia um menino" (Fernando Pessoa)



O grande poeta português Fernando Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, e gosto sempre de o recordar para vocês neste dia. Com versos dele, claro. 

Reparem na palavra caracol.


Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.
Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver
se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

"A noite vai alta" (Fernando Pessoa)

 

 

A noite vai alta.
O céu é azul.
Quem me falta?

O vento do sul
Inunda de calma
Meu corpo até à alma.

Espera-me alguém,
Ó vento furtivo?
Não sei. Vulto esquivo,
Fecho os olhos. Vem!

Fernando Pessoa



quarta-feira, 13 de junho de 2012

No aniversário de Fernando Pessoa

 Obra de Gilmar Fraga

Um dia como hoje, 13 de junho, mas do ano 1888, nasceu o poeta português Fernando Pessoa. Ele era um e era muitos poetas. Como??? Isto fica para ser esclarecido um dia qualquer.

Por enquanto (quer dizer, "por ahora"), leiamos estes versos de Alberto Caeiro, um poeta inventado por Pessoa. Há mais, hein!


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.




quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Quando passo um dia inteiro..." (Fernando Pessoa)


Uma quadra ao gosto popular que o poeta Fernando Pessoa escreveu à jovem que ele namorou um dia, Ofélia. Não são os melhores versos deste poeta, claro, mas já sabemos que "Todas as cartas de amor são ridículas...", como escreveu um "amigo" do poeta, chamado Álvaro de Campos.


Quando passo um dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho
Cobre-me um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Poema pial (Fernando Pessoa)



Depois da partida dos nossos amigos de Castelo Branco, voltamos à normalidade. Agora começa a saudade, já sabem todos o que isso significa, acho eu.

Vejam este poema do poeta português Fernando Pessoa. Quando está calor é bom falar de frio, não é! Podemos apanhar um pouco de fresco...


POEMA PIAL

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!


terça-feira, 15 de maio de 2012

Eugénio de Andrade, Nuno Júdice, Fernando Pessoa

Viva a poesia!


Estes foram os três poemas lidos ontem pelo professor de português na Biblioteca Ángel Campos Pámpano da nossa Escola quando recebemos os nossos amigos da EBI João Roiz de Castelo Branco. Uma aluna de 1º de Bachillerato leu as traduções para espanhol feitas por Ángel Campos.


Eugénio de Andrade

CADA COISA

Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.

Eugénio de Andrade


Nuno Júdice

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice


Ricardo Reis


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ai, Margarida (Pessoa + Deolinda e Cristina Branco)




Lembram-se da flor chamada malmequer ("bem me quer, mal me quer, bem me quer...") e do nome feminino Margarida de que falámos no outro dia? Eu disse que ia publicar aqui um poema de que me lembrei intitulado Margarida.

Cá está, mas quem escreveu este poemazinho? Fernando Pessoa ou Álvaro de Campos? Foi Álvaro de Campos pela mão do seu criador, Fernando Pessoa, e que também criou mais autores, chamados todos heterónimos. Parece um pouco complicado, mas não é tão difícil assim. Um dia deste hei de falar deste poeta e escritor, Fernando Pessoa.

E como fecho desta mensagem, depois de lerem o poema, podem ouvi-lo cantado por artistas portugueses: Cristina Branco e a banda Deolinda.


AI, MARGARIDA

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa


Deolinda e Cristina Branco cantam Pessoa



terça-feira, 31 de maio de 2011

"Quando as crianças brincam..." (Fernando Pessoa)


Estes versos foram escritos pelo poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), um poeta tão grande, tão grande, que era muitos poetas. Um dia destes explico-vos isto, ou pelo menos, tentarei fazê-lo para que vocês compreendam.

Quando as crianças brincam
e eu as ouço brincar,
qualquer coisa em minha alma
começa a se alegrar.

E toda aquela infância
que não tive me vem,
numa onda de alegria
que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
e quem serei visão,
quem sou ao menos sinta
isto no meu coração.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

No comboio descendente (Fernando Pessoa)



Os versos são do poeta português Fernando Pessoa e a música e a voz são do cantor João Afonso. Que grande alegria neste comboio, não acham?


No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada.
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela.
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não.
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.


Notas

vinha / vinham = venía / venían

tudo = todos, todo el mundo ("toda a gente", diz-se também em português)

à gargalhada = (riéndose) a carcajadas

dar trela a = (fam.) dar cuerda a 

reinação = juerga