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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Coisas que não há que há (Manuel António Pina)


Este poema de Manuel António Pina (1943 - 2012), jornalista e escritor português, já foi publicado no blogue em 2015, mas achei este vídeo e vale a pena que vocês conheçam estes versos: ouvimos e lemos ao mesmo tempo.

Manuel António Pina foi um grande poeta e dedicou parte da sua obra às crianças e aos mais jovens.

(Ágora Gaia)


Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há.
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...

Manuel António Pina


"A sopa de letras" é outro poema de Manuel António Pina no nosso blogue.





terça-feira, 19 de novembro de 2019

O pastor (Eugénio de Andrade)



O PASTOR

Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

Eugénio de Andrade






quinta-feira, 31 de outubro de 2019

No meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade)


O poeta brasileiro Carlos Dummond de Andrade recitando o famoso poema No meio do caminho em vídeo interpretado por Miguel Drummond, bisneto dele.

Hoje celebra-se no Brasil o Dia D, dedicado a este poeta.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Teatro apresentado pelos alunos do 7º Ano do Ensino Fundamental, na Semana Literária. Poema de Carlos Drummond Andrade - Tinha uma pedra no meio do caminho. Trabalho da professora Eliana, da E.E. Leopoldina Barros Drumond.



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

"Pensar de pernas para o ar..." (Manuel António Pina)



Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina


Do seu livro O país das pessoas de pernas para o ar



Fotografia de Mark Cohen




quinta-feira, 21 de março de 2019

A cabeça no ar (Manuel António Pina)


Celebramos o Dia Mundial da Poesia com um belo poema de Manuel António Pina, um dos meus poetas preferidos. Lemos e depois ouvimos.


A CABEÇA NO AR

As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
(embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer.
E isso tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

As meninas (Cecília Meireles)




AS MENINAS

Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina.

E Maria
apenas sorria:
"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

uma que se chamou Carolina.

Mas a profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

Cecília Meireles




terça-feira, 23 de outubro de 2018

A onda (Manuel Bandeira)


"Um poema do poeta brasileiro Manuel Bandeira, sobre um fundo de mar de Cassio Toledo."

Ouvimos primeiro com sotaque português e depois, brasileiro.

A ONDA

A onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda


"Aliteração, paronomásia, ritmo! Brincando com a sonoridade e o ritmo das palavras, A Onda é um clássico modernista cheio de movimento."




quarta-feira, 21 de março de 2018

A estrela (Manuel Bandeira)



Esta menina, que se chama Débora Cristina, diz este poema de Manuel Bandeira para nós. Hoje é o Dia Mundial da Poesia.


A ESTRELA

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Manuel Bandeira 








segunda-feira, 19 de março de 2018

Para o papai, tudo passa... (Pedro Bandeira)



Hoje é o Dia do Pai. Vamos ouvir esta menina brasileira a dizer um poema...


PARA O PAPAI, TUDO PASSA...

Meu pai é um cara engraçado!
Diz que me põe de castigo
Se eu não fizer a lição.
Só que, quando eu não faço,
Ele vem, com decisão
E com ar sério que ele tem,
E diz “desta vez passa”,
Mas na próxima vez, heim...

Se eu levo tombo e choro,
Ele me pega no colo,
Me embala e fica dizendo:
- Chore não... isso passa...

(Quando eu vou dormir e choro,
Ele me pega no colo,
Me embala e fica dizendo:
- Chore não... isso passa...)

Quando eu vou dormir
E tenho medo do escuro,
Ele me conta uma história,
Diz pra eu fechar os olhos
Que o medo passa.

Ah, eu gosto tanto dele!
E isso não passa.

Pedro Bandeira



terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Poesia", de Drummond, no Dia D



Esta menina chamada Maria Eduarda diz para nós um poema de um poeta do país dela, o Brasil: Carlos Drummond de Andrade. Ele nasceu no dia 31 de outubro e no Brasil celebram neste dia o Dia D (D de Drummond).


POESIA

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade




terça-feira, 21 de março de 2017

Cecília Meireles para o Dia Mundial da Poesia



Hoje, dia 21 de março, celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Nós vamos ler, e ouvir, dito pela Ana Lice, este poema da brasileira Cecília Meireles. Espero que gostem.


MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Bilhete (Mário Quintana)



Esta menina chama-se Samara Hannah e lê para nós um breve poema do poeta brasileiro Mário Quintana. Fiquem a saber que bilhete aqui quer dizer "Escrito curto, em forma de carta sem cerimónia", não tem nada a ver com dinheiro, cuidado!

Aviso: o som não é bom!


Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A palavra mágica (Carlos Drummond de Andrade)



Recordamos que hoje, há muitos anos, a 31 de outubro de 1902, nasceu o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Aqueles que gostam de poesia no Brasil, chamam este dia o Dia D.


A PALAVRA MÁGICA

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Poema pial (Fernando Pessoa)



Depois da partida dos nossos amigos de Castelo Branco, voltamos à normalidade. Agora começa a saudade, já sabem todos o que isso significa, acho eu.

Vejam este poema do poeta português Fernando Pessoa. Quando está calor é bom falar de frio, não é! Podemos apanhar um pouco de fresco...


POEMA PIAL

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!