Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa
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quarta-feira, 12 de junho de 2019

A adivinha do rei



A ADIVINHA DO REI

Tinha um rei um ministro em quem depositava toda a confiança; mas uma vez tal teiró lhe ganhou, que resolveu dar cabo dele e disse:

–Não tenho outro remédio senão mandar-te matar; mas como em tempo te estimei muito, ainda te deixo uma esperança, e é que me mandes cá a tua filha, para ver se ela é capaz de adivinhar o meu pensamento, o qual vem a ser: que não há-de vir nem de noite nem de dia; nem nua nem vestida; nem a pé nem a cavalo.

Foi o ministro para casa, muito aflito como era de esperar, e contou as suas tristezas à filha. Ela, esperta como era, disse:

–Deixe estar, meu pai, que eu já sei qual é o pensamento do rei, e deste lhe juro que o hei-de salvar.

Preparou-se e no dia seguinte arranjou as suas coisas, de modo que entrou no palácio ao lusco-fusco; ia com uma camisa fina de cambraia em cima do corpo, e levada às cavaleiras de um criado velho que tinha. O rei, assim que a viu, reconheceu que o lusco-fusco não era nem noite nem dia; que vindo em camisa não vinha vestida, mas também não estava despida; e que às costas do criado não estava a cavalo, mas também não estava a pé. Lovou muito a esperteza da menina, e disse-lhe que fosse dali dizer ao pai que estava perdoado, e que tornava a entrar na sua confiança, porque quem tinha filhas assim tão espertas era homem de confiança.


teiró = Fig. Teima; má vontade (esp. "manía")

dar cabo de = acabar.

lusco-fusco = o anoitecer; crepúsculo vespertino



terça-feira, 23 de abril de 2019

Hoje é o Dia do Livro

F. Gulbenkian - [Biblioteca Itinerante n.º 006 (Lagos). Leitora]

Voltamos das férias da Páscoa neste bonito dia, 23 de abril, já sabem, o Dia do Livro


Vejam esta árvore: as suas folhas são folhas de livros. E agora vamos aproveitar para ler um conto tradicional português:


AS TRÊS MAÇÃZINHAS DE OURO

Havia uma vez três irmãos. O mais novo tinha três maçãzinhas de ouro, e os outros, para ver se lhas tiravam, mataram-no e enterraram-no num monte. Depois nasceu na sepultura uma cana.

Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da cana para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia;

Toca, toca, ó pastor,
os meus irmãos me mataram
por três maçãzinhas de ouro,
e ao cabo não as levaram.

O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a flauta dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ela foi andando de mão em mão, até que chegou ao pai e à mãe do morto; a flauta ainda dizia o mesmo.

Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãzinhas de ouro.




terça-feira, 9 de abril de 2019

Um conto tradicional: A menina enterrada viva

Fotografia de Guto Moreira

Este conto tradicional é também conhecido como A menina da figueira. Como todos os contos populares ou tradicionais, são anónimos.


Era um dia um viúvo que tinha uma filha muito boa e bonita. Vizinha ao viúvo residia uma viúva, com outra filha, feia e má. A viúva vivia agradando a menina, dando presentes e bolos de mel. A menina ia simpatizando com a viúva, embora não se esquecesse de sua defunta mãe que a acariciava e penteava carinhosamente. A viúva tanto adulou, tanto adulou a menina que a menina acabou pedindo a seu pai que ele se casasse com a viúva:

- Case com ela, papai. Ela é muito boa e me dá mel!

- Agora ela lhe dá mel, minha filha, amanhã ela vai lhe dar fel. - respondia o viúvo.

A menina insistiu, insistiu. O pai, para satisfazê-la, casou com a viúva. Mas, obrigado por seus negócios, o homem viajava muito, e a madrasta aproveitou essas ausências para mostrar quem era. Ficou muito bruta e malvada, tratando a menina como se fosse um cachorro. Dava-lhe pouco de comer e botava-a para dormir no chão, em cima de uma esteira velha. Depois ordenou a menina fazer os trabalhos mais pesados da casa. E quando não havia coisa alguma para a menina fazer, a madrasta não a deixava brincar. Mandava-a vigiar um pé de figos que estava carregadinho, para os passarinhos não bicarem as frutas.

A pobre menina passava horas e horas guardando os figos e, quando algum passarinho voava por perto, ela gritava: “Xô, passarinho!” Mas, numa tarde, a menina estava tão cansada que adormeceu. E, quando acordou, os passarinhos tinham picado todos os figos. A madrasta veio ver e ficou doida de raiva. Achou que aquilo era um crime. De tanta raiva, matou a menina e enterrou-a no fundo do quintal. Quando o pai voltou da viagem, a madrasta disse que a menina havia fugido de casa e andava pelo mundo, sem juízo. O pai ficou muito triste.

Em cima da sepultura da órfã, nasceu um capinzal bonito. O dono da casa mandou que o empregado fosse cortar o capim. O capineiro foi pela manhã e, quando começou a cortar o capim, saiu uma voz do chão, cantando:

Capineiro de meu pai,
Não me cortes os cabelos.
Minha mãe me penteou,
Minha madrasta me enterrou,
Pelo figo da figueira
Que o passarinho picou.
Xô! passarinho!

O capineiro deu uma carreira, assombrado, e foi contar o que ouvira. O pai veio logo e ouviu as vozes cantando aquela cantiga tocante. Cavou a terra e encontrou uma laje. Por baixo, estava vivinha a menina. O pai, chorando de alegria, abraçou-a e levou-a para casa. Quando a madrasta avistou de longe a enteada, saiu pela porta afora, e nunca mais deu notícias se era viva ou morta. E, assim, o pai ficou vivendo muito bem com sua filhinha.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Um conto tradicional: A estátua que come

Fotografia de seLusava



A ESTÁTUA QUE COME

Havia numa igreja uma estátua de mármore que estava com a boca aberta. Uns homens começaram a falar ao pé dela, e disse um:

–Está há tantos anos com a boca aberta, sem ninguém lhe dar de comer.

–Pois se quiser de comer, que venha a minha casa.

Ora o que disse isto era muito pobre; à noite quando chegou a casa, bateram-lhe à porta, e era a estátua, que dizia que estava ali para cear com ele. O homem atrapalhou-se um pouco, e respondeu-lhe a verdade, que não tinha que cear, porque era muito pobre.

–Pois vais pedir por esse mundo, até teres que me dar de comer.

Dizendo isto a estátua foi-se embora, e o pobre homem não pode ficar mais sossegado e foi pedir por esse mundo. Passado muito tempo estava rico, e veio outra vez à sua terra, procurou a sua casa, e viu outras no seu lugar, e todos lhe diziam que já não se lembravam de terem feito obras naquele local. Foi à igreja e viu ainda lá a estátua que tinha convidado e quando se foi chegando para ela, viu-lhe ainda a boca aberta, e pensou consigo:

–Eu convidei-a há tanto tempo, que ela já não me conhece.

E aproximando mais, ouviu a estátua dizer:

–Bem te conheço, e agora que estás rico é que virás cear comigo.

E caiu-lhe em cima e matou-o.




sexta-feira, 1 de abril de 2016

Shila - "Conto do rei da noite" do disco single "Meu Amor Pequenino" (António Botto) 1981




"Meu Amor Pequenino", a Shila, conta histórias lindas de António Botto.
História narrada por Sérgio Godinho, Mário Viegas e Shila.
Letra de António Botto e musica de Shila, com direcção musical de Luis Caldeira.
João Paulo Esteves da Silva ao piano e órgão.
Luis Caldeira e Tomás Pimentel nos sopros.
Zé Carrapa na viola e cavaquinho.
Zé Martins na bateria, percussão e vibrafone.
Luis Duarte no baixo.





quinta-feira, 23 de abril de 2015

Um conto moçambicano: O Rato e o Caçador

Moçambique (Fotografia de João Correia Filho)


O Rato e o Caçador

Antigamente havia um caçador que usava armadilhas, abrindo covas no chão. Ele tinha uma mulher que era cega e fizera com ela três filhos.
Um dia, quando visitava as suas armadilhas, encontrou-se com um leão:
- Bom dia, senhor! Que fazes por aqui no meu território? (perguntou o leão)
- Ando a ver se as minhas armadilhas apanharam alguma coisa, respondeu o homem.
- Tu tens de pagar um tributo, pois esta região pertence-me. O primeiro animal que apanhares é teu e o segundo meu e assim sucessivamente.
O homem concordou e convidou o leão a visitar as armadilhas, uma das quais tinha uma presa __ uma gazela. Conforme o combinado, o animal ficou para o dono das armadilhas.
Passado algum tempo, o caçador foi visitar os seus familiares e não voltou no mesmo dia. A mulher, necessitando de carne, resolveu ir ver se alguma das armadilhas tinha presa. Ao tentar encontrar as armadilhas, caiu numa delas com a criança que trazia ao colo.
O leão que estava à espreita entre os arbustos, viu que a presa era uma pessoa e ficou à espera que o caçador viesse para este lhe entregar o animal, conforme o contrato.
No dia seguinte, o homem chegou a sua casa e não encontrou nem a mulher nem o filho mais novo. Resolveu, então, seguir as pegadas que a sua mulher tinha deixado, que o guiaram até à zona das armadilhas. Quando aí chegou, viu que a presa do dia era a sua mulher e o filho. O leão, lá de longe, exclamou ao ver o homem a aproximar-se:
- Bom dia amigo! Hoje é a minha vez! A armadilha apanhou dois animais ao mesmo tempo. Já tenho os dentes afiados para os comer!
- Amigo leão, conversemos sentados. A presa é a minha mulher e o meu filho.
- Não quero saber de nada. Hoje a caçada é minha, como rei da selva e conforme o combinado, protestou o leão.
De súbito, apareceu o rato.
- Bom dia titios! O que se passa?, disse o pequeno animal.
- Este homem está a recusar-se a pagar o seu tributo em carne, segundo o combinado.
- Titio, se concordaram assim, porque não cumpres? Pode ser a tua mulher ou o teu filho, mas deves entregá-los. Deixa isso e vai-te embora, disse o rato ao homem.
Muito contrariado, o caçador retirou-se do local da conversa, ficando o rato, a mulher, o filho e o leão.
- Ouve, tio leão, nós já convencemos o homem a dar-te as presas. Agora deves-me explicar como é que a mulher foi apanhada. Temos que experimentar como é que esta mulher caiu na armadilha (e levou o leão para perto de outra armadilha).
Ao fazer a experiência, o leão caiu na armadilha.
Então, o rato salvou a mulher e o filho, mandando-os para casa.
A mulher, vendo-se salva de perigo, convidou o rato a ir viver para a sua casa, comendo tudo o que ela e a sua família comiam.

Foi a partir daqui que o rato passou a viver em casa do homem, roendo tudo quanto existe...





quinta-feira, 26 de março de 2015

O caldo de pedra: conto tradicional português



O texto deste conto tradicional português (O caldo da pedra ou A sopa da pedra) já foi publicado aquí. Vamos ler em primeiro lugra o conto, não acham?, e depois vemos a versão em desenhos animados.


Topefilme Produções. Primeiro dos Contos Tradicionais Portugueses desta série.
Realização de Artur Costa Correia. Caldo de Pedra.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

De Timor-Leste: A lenda do homem e o crocodilo



Recuperamos esta mensagem para os alunos do 1º ano saberem que Timor-Leste é um país da Ásia que foi colónia de Portugal, e é por isso que hoje o português é lingua oficial nesse jovem país (independente só desde 2002). Para além disso, temos uma bonita lenda
 


A LENDA DO HOMEM E DO CROCODILO

Em Massacar, na ilha dos celebes, vivia um crocodilo. Isto passou-se muito antes dos tempos que já lá vão. Velho, sem velocidade para os peixes da ribeira, não teve outro recurso senão por pé no seco e aventurar-se terras adentro a ver se topava cão ou porco que lhe matasse a fome.

Andou, andou e nada topou.

Resolveu regressar, mas o caminho era longo e o sol ardia. Abrasado, sentiu o crocodilo que as forças iam faltar-lhe e que, mais passo menos passo, ficaria ali como uma pedra.

Mas o acaso fez que lhe passasse mesmo à mão e a tempo um rapaz. Este, condoído, ajudou-o a arrastar-se até à ribeira. O crocodilo ficou-lhe gratíssimo, oferecendo-se para, a partir daquele dia, o levar às costas pelas águas dos rios e do mar.

Certa vez, apertada pela fome e sem cão ou porco que a matasse, decidiu-se a comer o rapaz. Antes, porém, para alívio da consciência, consultou os outros animais sobre se devia ou não comê-lo. Desde a baleia ao macaco todos ralharam muito com ele acusando-o de ser ingrato.

Inclinado-se perante a opinião geral e no receio de que a sua presença passasse, de futuro, a ser mal tolerada, o crocodilo dispôs-se a partir mar fora e a levar consigo o dedicado rapaz por quem, vencida a tentação, sentia amizade quase paternal.

Foi nesta disposição que convidou o rapaz a pular-lhe para as costas.

Fazendo-se, então, ao mar, nadou, onda após onda, em demanda das terras onde nasce o sol, convencido de que lá havia de encontrar um disco de oiro semelhante ao outro que o norteava. Porém, quando, já cansado de nadar, pensou em dar meia volta e regressar às terras de origem, sentiu que o corpo se lhe imobiliza e se transformava rapidamente em pedra e terra, crescendo, crescendo, até atingir as dimensões de uma ilha.

Caminhou então o rapaz sobre o dorso desta ilha, rodeou-a com o olhar e chamou-a de Timor que, em língua malaia, quer dizer oriente.


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Gostaram?


E agora vamos aprender um pouco sobre Timor-Leste, antiga colónia portuguesa, país independente desde 2002:

Em 30 de Agosto de 1999, os timorenses votaram por esmagadora maioria pela independência, pondo fim a 24 anos de ocupação indonésia, na sequência de um referendo promovido pelas Nações Unidas. (...) Em 20 de Maio de 2002 a independência de Timor-Leste foi restaurada e as Nações Unidas entregaram o poder ao primeiro Governo Constitucional de Timor-Leste. (Wikipédia)



Designação Oficial: República Democrática de Timor-Leste

Capital: Díli

Outras cidades importantes: Baucau, Manatuto, Aileu e Liquiçá

Data da actual Constituição: Maio de 2002

Língua: as línguas oficiais são o Português e o Tétum

Unidade monetária: Dólar norte-americano (USD). Para facilitar as trocas comerciais, o Estado cunha moedas de denominação “centavo”.

Recursos económicos: A economia de Timor-Leste assenta na produção de cacau, café, cravo e coco. Nos últimos anos foram encontrados importantes reservas de petróleo e gás natural.

Timor-Leste na Infopédia








segunda-feira, 16 de junho de 2014

A sopa da pedra




A SOPA DA PEDRA

Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, não lhe quiseram aí dar esmola. O frade estava a cair com fome, e disse:

- Vou ver se faço um caldinho de pedra …!

E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança.

Perguntou o frade:

- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa boa.

Responderam-lhe:

- Sempre queremos ver isso!

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:

- Se me emprestassem aí um pucarinho

Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas…

Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, tornou ele:

- Com um bocadinho de unto, é que o caldo ficava um primor!

Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada pelo que via. Dizia o frade, provando o caldo:

- Está um bocadinho insosso. Bem precisava de uma pedrinha de sal.

Também lhe deram o sal. Temperou, provou e afirmou:

- Agora é que, com uns olhinhos de couve o caldo ficava que até os anjos o comeriam!

A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras.

O frade limpou-as e ripou-as com os dedos, deitando as folhas na panela.

Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:

- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça…

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforje pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era uma regalo. Comeu e lambeu o beiço. Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou:

- Ó senhor frade, então a pedra?

Respondeu o frade:

- A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.


E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.


(Mais contos em O Sótão da Inês)



quarta-feira, 23 de abril de 2014

A história de Blimundo


Um conto que nos vem da África, de Cabo Verde, onde também, como vocês sabem, o português é língua oficial. Mas é preciso dizer que também existe o cabo-verdiano, uma língua crioula de base portuguesa que se formou algumas décadas após o início da ocupação deste arquipélago, e que é a língua materna de toda a população. Esta língua costuma chamar-se crioulo.



A HISTÓRIA DE BLIMUNDO

Havia um boi chamado Blimundo. Era grande, forte e amante da vida e da liberdade. Além disso, era muito amado e respeitado por todos, pois sabia pensar por si próprio, além de ser muito gentil com todos. Ao saber da existência de criatura tão autêntica, Senhor Rei perguntou-se que boi seria esse, que ousava ser tão livre em seus posicionamentos e fazendo com que os outros bois lhe seguissem o exemplo. Se ele continuasse assim, quem faria, depois, o trabalho pesado do reino?

Ordenou, então, que Blimundo fosse pego morto ou vivo, e trazido até a sua presença. Os homens do Senhor Rei saíram em busca do boi, mas este os encontrou primeiro e deu um fim neles. Ao saber da notícia, Senhor Rei reuniu os homens mais valentes do reino e os mandou capturar Blimundo, e os homens partiram. O boi, novamente, deu cabo dos homens.

Quando recebeu tão triste notícia, Senhor Rei desesperou-se, mas logo ouviu falar de um rapaz que fora criado no borralho da cinza e que se prontifica a ir buscar Blimundo. O menino pediu um cavaquinho, um “bli” d'água e uma bolsa de “prentém”. Além disso, quando retornasse queria a metade da riqueza do reino e a mão da princesa. Senhor Rei concordou e o jovem partiu.

Então o jovem sai em busca do boi cantando uma canção que deixa Blimundo encantado, na qual o jovem diz que, se Blimundo for com ele, casará com a Vaquinha da Praia. O boi pergunta se é verdade, o rapaz responde que sim. O jovem pede a Blimundo que o deixe montar, pois o caminho é muito longo. Ele deixa com a condição de que o rapaz continue cantando. Senhor Rei colocou a tropa em pontos estratégicos para receber Blimundo. Ao ver o boi chegar, carregando o rapaz no lombo, cansado e feliz, Senhor Rei não acreditou. À porta do palácio, o rapaz pediu para descer do lombo de Blimundo a fim de fazer a barba antes de ser apresentado à Vaquinha da Praia. O jovem conta o seu plano ao Senhor Rei e leva até o boi um barbeiro com seus instrumentos. Atrás deles, Senhor Rei.

O barbeiro, enquanto Blimundo sonha com o amor da Vaquinha da Praia, corta-lhe a garganta com a navalha. Antes de morrer, o boi atinge o rei com uma patada que o mata. O rapaz e o barbeiro fogem, mas jamais esquecem o último olhar de revolta de uma criatura cujo único erro foi acreditar na harmonia, na justiça e na liberdade.






terça-feira, 29 de outubro de 2013

Encontro Palavras Andarilhas - O camponês e a caixa



O camponês e a caixa é um conto contado por José Paulo Santos, aqui no Encontro Palavras Andarilhas, de Beja, que reune contadores, aprendizes e entusiastas do grande mundo da tradição oral.

E tem uma bonita moral, não tem?



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Um conto tradicional brasileiro: O caso do espelho



Aqui temos um conto da tradição oral brasileira traduzido em imagens: um breve filme de cinema mudo, nem cinco minutos. Atenção às imagens e às palavras que vão ler.

Ah, e não faz mal se não perceberem as palavras todas, mas a história fica clara, não fica?

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um conto africano: Os segredos da nossa casa



Para completar a imagem da mensagem anterior, eis uma breve leitura.


OS SEGREDOS DA NOSSA CASA

Certo dia, uma mulher estava na cozinha e, ao atiçar a fogueira, deixou cair cinza em cima do seu cão. O cão queixou-se: 

— A senhora, por favor, não me queime!

Ela ficou muito espantada: um cão a falar! Até parecia mentira... Assustada, resolveu bater-lhe com o pau com que mexia a comida. Mas o pau também falou: 

— O cão não me fez mal. Não quero bater-lhe! 

A senhora já não sabia o que fazer e resolveu contar às vizinhas o que se tinha passado com o cão e o pau. Mas, quando ia sair de casa a porta, com um ar zangado, avisou-a:

 — Não saias daqui e pensa no que aconteceu. Os segredos da nossa casa não devem ser espalhados pelos vizinhos.

A senhora percebeu o conselho da porta. Pensou que tudo começara porque tratara mal o seu cão. Então, pediu-lhe desculpa e repartiu o almoço com ele.


Comentário: é fundamental sabermos conviver uns com os outros, assegurar o respeito.


Fonte: Eu conto, tu contas, ele conta... Estórias africanas, org. de Aldónio Gomes, 1999


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um conto moçambicano: A Menina que não falava

Uma machamba em Matola, Moçambique


Hoje temos para ler um conto tradicional de Moçambique, meninos e meninas. E vejam em cima e em baixo o que é uma machamba nesse país.


A Menina que não falava

Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto.

- Essa nossa filha não fala. Caso consigas fazê-la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga.

O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insultá-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e foi-se embora.

Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna mas, ninguém conseguiu fazê-la falar.

O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam:

- Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram fazê-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso!

O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam. O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sachá-los.

Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:

- O que estás a fazer?

O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão.

Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento.


machamba
s. f.
1. [Moçambique] Plantação agrícola. = HORTA
2. [Moçambique] Propriedade agrícola. = HERDADE, QUINTA



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O alfaiate valente (Irmãos Grimm)

Ilustração de Raquel Santos


 O alfaiate valente é um conto dos Irmãos Grimm.

Há muito, muito tempo, um alegre alfaiate de quem todos gostavam, porque era muito bom e generoso, ainda que as pessoas não o levassem muito a sério, porque era um grande gabarolas e tinha o hábito de exagerar quando contava as suas aventuras. Um certo dia, o alfaiate estava a coser, muito contente porque lhe tinham oferecido um bolo, que ia comer quando acabasse o que estava a fazer, mas o cheiro do bolo atraiu várias moscas que se puseram a voar à sua volta.
O alfaiate tentou enxotá-las com um pedaço de tecido, mas os insectos só se afastavam por alguns segundos, voltando de imediato a pousar em cima do bolo. Por fim, o rapaz fartou-se e, com um terrível golpe, matou as sete moscas de uma só vez. Como era um bocadinho gabarolas, o alfaiate bordou num cinto a palavra «MATASETE», com letras bem grandes, e pô-lo.
Foi para a rua e a todas as pessoas com quem se cruzava dizia:
- Matei sete! Matei sete de uma vez!
As pessoas olhavam e sorriam, porque todos sabiam que era um bom rapaz, apesar de ser um pouco gabarolas. Alguns até lhe deram os parabéns, e o alfaiate acabou por acreditar de tal forma que decidiu ir por todo o mundo, pois o ofício de alfaiate não era para um valente como ele.
E foi assim que o alfaiate saiu da cidade e entrou no bosque, decidido a viver grandes aventuras.Quando se estava a preparar para comer um bocado de queijo, apareceu um gigante, que para o assustar partiu uma rocha com as próprias mãos.
Mas o alfaiate, que era um rapaz muito valente, não se assustou e disse ao gigante: 
- Pensas que podes assustar o famoso MATAsete com esses disparates?
- Disparates? – rugiu o gigante, furioso.
- Achas um disparate partir uma rocha com as mãos? Porque é que não tentas tu, pequenote?
O alfaiate, que além de valente era muito esperto, fingiu que tinha apanhado uma pedra do chão e mostrou ao gigante o bocado de queijo que ia comer; depois, com cara de quem estava a fazer muita força, esmagou-o.
- O que é que achas? Com uma só mão! – disse ao gigante, mostrando-lhe o bocado de queijo esborrachado.
Então o gigante, furioso mas impressionado, arrancou uma grande árvore pela raiz e disse:
- Vamos ver se me consegues ajudar a levar lenha para casa.
- Claro que sim! – respondeu o alfaiate. – Vai tu à frente, que sabes o caminho, e eu vou atrás. O gigante pôs o grande tronco às costas, e o alfaiate, fingindo que o estava a ajudar, agarrou-se a um ramo.
Chegaram a uma caverna onde vivia o gigante com outros gigantes como ele. Ofereceram-lhe uma enorme cama, e o alfaiate fingiu que se ia deitar. Mas de seguida escondeu-se debaixo desta, e foi graças a isso que salvou a sua vida, pois o gigante bateu com uma moca no sítio onde pensava que o alfaiate estava a dormir.
A cama rangeu com a terrível pancada, e por um momento o alfaiate pensou que se ia partir e o ia esmagar, mas felizmente resistiu. Como estava às escuras e tinha ouvido um ruído que lhe parecia de ossos a partir, o gigante pensou que tinha acabado com o alfaiate e foi dormir.
No dia seguinte, o rapaz saiu do seu esconderijo e foi procurar o gigante e os seus amigos. Ao vê-lo são e salvo, os gigantes pensaram que era um ser invencível e ficaram assustados.
A extraordinária proeza do rapaz com os gigantes começou a correr de boca em boca e chegou aos ouvidos de um rei. Este mandou chamar o alfaiate e disse-lhe:
- No meu reino há dois gigantes que fazem todo o tipo de maldades e aterrorizam os meus súbditos. Se conseguires ver-te livre deles, nomear-te-ei meu herdeiro e dar-te-ei metade das minhas riquezas.
- Não vos preocupeis, majestade – disse o alfaiate -, os gigantes são a minha especialidade. Dizei-me onde posso encontrá-los e não vos tornarão a incomodar.
Com as indicações que o rei lhe deu, o rapaz não tardou a encontrar os gigantes que dormiam debaixo de uma árvore.
O alfaiate subiu à árvore e de lá de cima atirou uma pedra a um dos gigantes que, ao pensar que tinha sido o seu companheiro, deu-lhe uma violenta pancada.
O outro gigante acordou e bateu-lhe em resposta à pedrada, e assim, pancada após pancada, os dois gigantes acabaram por se envolver num combate mortal. Arrancaram árvores para usar como mocas, atiraram um contra o outro pedras tão grandes que conseguiam destruir uma casa, gritaram, deram pontapés… e no fim acabaram por morrer os dois.
Então o alfaiate desceu da árvore e foi chamar os soldados do rei, que não podiam acreditar no que os seus olhos viam.
E, tal como tinha prometido, o rei nomeou o rapaz seu herdeiro e encheu-o de honras e riquezas.Assim, graças à sua astúcia, o alfaiate valente transformou-se em príncipe.




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Rosa branca, rosa rubra


A fórmula tradicional para começar um conto tradicional é Era uma vez... Agora vamos ler um desses contos. Intitula-se Rosa branca, rosa rubra.


Era uma vez uma pobre viúva que vivia numa casa onde cresciam duas roseiras; uma dava rosas brancas e a outra rosas rubras. As suas duas filhas pareciam-se tanto com essas duas roseiras que lhes pôs o nome de Rosa Branca e Rosa Rubra. As duas gostavam muito uma da outra e iam sempre juntas para todo o lado.
Um dia, ao entardecer, enquanto a mãe lia um livro às meninas junto à lareira, alguém bateu à porta.
- Vá lá, Rosa Rubra, vai abrir! – disse a mãe. A Rosa Rubra foi ver quem era pensando que seria um viajante em busca de abrigo. Mas afinal era um enorme urso que, ao ver a menina, disse:
- Não vos quero fazer mal. Só peço que me deixem aquecer um bocadinho à lareira. - Entra, entra e vem para ao pé de nós! – gritou a mãe, lá de dentro.
As meninas, pouco a pouco, foram ganhando confiança e o urso também, e estiveram os três entretidos a brincar até já bem entrada a noite.
Quando chegou a hora de ir dormir, a mãe e as suas filhas foram-se deitar e o urso ficou ao pé do lume. A partir daquele dia, todas as tardes ia a casa das meninas para brincar com elas e passar ali a noite. Mas uma manhã, quando chegou a Primavera e começaram a brotar as primeiras flores, o urso dirigiu-se à Rosa Branca e à Rosa Rubra e disse-lhes:
- Agora não me vão ver até ao próximo Inverno. Tenho de tomar conta dos meus tesouros, pois com o bom tempo os anões maus saem dos seus abrigos e apoderam-se de tudo o que encontram.
Que triste foi a despedida! As crianças choravam inconsoláveis e o urso, muito emocionado, saiu a correr pela porta, mas com tanto azar que se feriu na maçaneta. Rosa Branca pareceu ver brilhar ouro debaixo da sua pele, mas não deu importância. O urso começou a correr até desaparecer no bosque.
Um dia, enquanto as meninas passeavam pelo bosque, ouviram uns gritos. Era um anão que tinha a barba presa no tronco de uma árvore e que gritava:
- De que é que estão à espera? Tirem-me daqui! - O que é que te aconteceu? – perguntou a Rosa Rubra. - Mas que grande curiosa! Afinal vais ajudar-me ou não? – replicou o anão.
As meninas, por mais que se esforçassem, não conseguiram soltar a barba, e a Rosa Branca pegou numa tesoura e cortou a parte que estava presa.
O anão, ao ver que estava solto, agarrou num saco cheio de ouro que estava escondido entre as raízes da árvore e foi-se embora a resmungar:
- Cortaram-me a ponta da minha linda barba!
Noutro dia, as duas meninas foram pescar; junto ao riacho viram outra vez o mesmo anão. A sua barba tinha-se embaraçado no fio de pesca que tinha nas mãos. Rosa Branca voltou a pegar na tesoura e cortou-lhe outro bom bocado de barba.
- São malucas! Não ficaram satisfeitas com a ponta da barba? – disse o anão a refilar. Depois, agarrou num saco de pérolas que tinha escondido entre uns juncos e foi-se embora.
No dia seguinte, a mãe mandou as filhas à cidade comprar linha. No caminho, viram o anão balançar-se no ar, capturado por uma águia.
Depois, foram ajudá-lo. Agarraram-no pelo casaco e cortaram até o enorme pássaro o soltar. Como sempre, o anão foi-se embora sem agradecer, desta vez com um saco de pedras preciosas.
As meninas já estavam habituadas à sua pouca simpatia, por isso seguiram o seu caminho e fizeram as suas compras na cidade.
No regresso, surpreenderam o anão a abrir os sacos de pedras preciosas no meio do campo, pensando que a essa hora não ia passar ninguém por ali. O sol fazia as brilhantes pedras reluzirem ainda mais. As crianças, ao passar, ficaram deslumbradas a olhar para elas.
- O que é que estão aqui a fazer paradas? – gritou o anão. Já estou farto das meninas o quererem ajudar.
Vermelho de raiva, começou a insultá-las e a ameaçá-las, quando, de repente, um enorme urso saiu do bosque em direcção ao anão.
Este, assustado, deu um salto e dasatou a correr à procura de um esconderijo. Demasiado tarde. O urso interceptou-o e pôs-se à frente dele, ameaçador. - Senhor urso, não me faça mal! – exclamou o anão. Dou-lhe todos os meus tesouros se me poupar a vida!
O urso, sem nenhuma piedade, avançou sobre a malvada criatura e, de um só golpe, acabou com a sua vida. As meninas ficaram tão assustadas que fugiram dali a correr. O urso foi atrás delas a gritar:
- Esperem! Não tenham medo!
As meninas reconheceram logo a voz do seu amigo e pararam. Ao chegar junto delas, o urso abraçou-as, contente de as tornar a ver. Então, libertou-se da pele de urso e disse:
- Eu sou um príncipe que o malvado anão tinha enfeitiçado, depois de roubar todos os meus tesouros. Só quando os recuperasse e o anão desaparecesse é que se quebraria o feitiço e eu recuperaria o aspecto humano…
E assim foi. Quando o anão recebeu o seu castigo e as pequenas souberam que o urso bom, na realidade, era um jovem príncipe, foram contar à mãe.
Depois de algum tempo a Rosa Branca casou-se com o príncipe e a Rosa Rubra com o seu irmão. Foram todos viver para o palácio e a velha mãe levou consigo as roseiras, que ainda oferecem todos os anos umas bonitas rosas brancas e rubras.








sexta-feira, 23 de março de 2012

O cego e o moço

 Pintura de Goya

Será que algum aluno, depois de ler este conto, vai dizer-me se conhece alguma história muito parecida na literatura espanhola? Ou sera que ainda é cedo para perguntar isso?


O CEGO E O MOÇO

Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço:

– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão. 

– Pela minha salvação, que não deram senão pão. 

 – Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio! 

E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe: 

– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:

– Ó rapaz do diabo! Que te racho. 

Diz-lhe ele: 

Pois cheira-lhe o pão a linguiça, 
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

João Pequenito


É um bocado comprido este conto? Alguém vai tentar lê-lo todo? Nas férias do Natal há muito tempo para muitas coisas...


Havia noutros tempos um homem que tinha três filhos e como fossem muito pobres disse-lhes um dia: “Meus filhos, é tempo de ir correr mundo em busca de fortuna, porque eu nada tenho que lhes deixar quando morrer”. Então os filhos despediram-se do pai e partiram para muito longe, indo ter à corte de um rei turco muito mau. Logo que ali chegaram pediram agasalho por aquela noite; o rei mandou-os entrar no palácio e como ele tinha três filhas mandou que deitassem os três rapazes nas camas das filhas e que lhes pusessem na cabeça umas carapuças de prata, que eram para quando eles estivessem a dormir lhes ir cortar as cabeças.

Lá pela noite adiante o rapaz mais novo que se chamava João Pequenito (apelido que lhe puseram por ele ser muito baixinho) levantou-se e tirou a carapuça da cabeça e das cabeças dos irmãos; pô-las nas cabeças das filhas do rei e fugiu do palacio e mais os irmãos, escapando assim à morte.

O rei turco, de noite, foi para matar os rapazes e matou as filhas, julgando serem eles quem matava.

Quando os rapazes ja iam muito longe, disse o João Pequenito: “Agora é preciso separarmo-nos e cada qual busque a sua vida”. O João Pequenito foi ao palácio de certo rei e pediu para que o tomassem para criado; o rei nomeou-o seu jardineiro e ele de tal maneira se soube haver que o rei estimava-o mais que todos os outros criados. Entre estes começou a reinar muita inveja a pontos de irem dizer ao rei que o João Pequenito tinha dito que era capaz de ir furtar uma bolsa de moedas que o rei turco tinha debaixo da cabeceira. Chamou o rei o João Pequenito e disse-lhe o que os criados tinham dito e ele respondeu que sim, que iria, e disse mais: “Mande-me Vossa Majestade dar um navio para eu ir à corte do rei turco e verá de quanto eu sou capaz”.

Foi o João Pequenito; subiu pela parede do palácio do rei turco, entrou pela janela e quando o rei dormia tirou-lhe a bolsa debaixo do travesseiro e fugiu.

O papagaio do rei turco começou a gritar: “Ó rei, olha que o João Pequenito leva a tua bolsa de moedas”. O rei foi ver à janela, mas ele já ia longe; o rei ainda lhe perguntou:

–Tornarás cá, Pequenito?
–Tornarei, tornarei.

E foi todo contente levar a bolsa ao rei seu amo.

Passados dias foram dizer ao rei que o João Pequenito dissera que era capaz de ir furtar a coberta de campainhas que o rei turco tinha na cama. De novo é o Pequenito interrogado e lá volta à corte do turco, furta a coberta e foge. O papagaio do rei turco gritava: “Ó rei, ó rei, olha o Pequenito que leva a tua coberta de campainhas”. O turco foi à janela e perguntou:

–Tornarás cá, Pequenito?
–Tornarei, tornarei.

Chegou o Pequenito ao palácio de seu amo com a coberta e o rei de cada vez estava mais agradado dele por ver a sua valentia.

De novo os criados foram dizer ao rei que o Pequenito dissera que era capaz de ir furtar o papagaio do rei turco. O Pequenito, logo que isto soube, aprontou-se e foi. Furtou o papa-gaio e este gritava pelo caminho: –“Aqui d’el-Rei, que furtado me levam”.

Chegado o Pequenito ao palácio novos tra-balhos o esperavam. Disseram ao rei que o pequenito dissera que era capaz de furtar o rei turco e de o trazer para o palácio. Então o rei disse-lhe: “Se tu fores capaz de me trazer aqui o rei turco, casarás com a princesa minha filha”. O Pequenito respondeu: “Dê-me Vossa Majestade um exército de homens e alguns navios e verá de quanto é capaz o Pequenito”.

Aprontou-se tudo e o Pequenito arranjou uma grande dorna e foi ao palácio do turco e quando ele estava a dormir envolveu-o na roupa da cama; desceu com ele pela janela, meteu-o na dorna e à frente do exército lá o levou para a corte do rei seu amo. Este quis logo que o Pequenito casasse com a sua filha; fizeram-se grandes festas e o Pequenito mandou ir para o palácio o seu pai e irmãos, dando-lhes altos cargos na corte. E assim acaba esta história.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os três estudantes e o soldado

 Um paio de carne de porco


Era uma vez três estudantes, que iam para casa das famílias passar as férias. Seguiam pelo mesmo caminho e encontrando um lobo morto disse um deles: “Aquele que fizer o verso mais bem feito a este lobo, come o jantar sem pagar”.

– Está dito! – responderam os outros dois, e um deles começou:

Este lobo, quando no mundo andou,
quanto comeu, nada pagou.

Disse o outro estudante:

Este lobo, quando era vivo,
tudo comeu cru e nada cozido.

O terceiro respondeu:

Este lobo, quando dormiu a sesta,
nunca dormiu uma como esta.

Depois de dizerem os versos começaram a discutir, porque todos três queriam que o seu fosse o melhor.

Nisto passou um soldado, e eles chamaram-no dizendo-lhe: “Olá, camarada! Há-de dizer-nos qual dos versos é melhor, para sabermos qual de nós há-de comer o jantar sem pagar”, e repetiram os versos. Depois de acabarem, disse o soldado: “Estão todos muito bem feitos. Paguem os senhores todos três o jantar e comamo-lo todos quatro”. “Pois sim!” disseram os estudantes, mas zangados por se verem logrados por um soldado, combinaram entre si que haviam de zombar dele. Chegaram a uma hospedaria e mandaram fazer jantar para todos quatro, mas em particular disseram à dona da hospedaria, que cozesse um paio e o pusesse na mesa partido em três partes iguais. Depois disto sentaram-se todos quatro à mesa, e um dos estudantes espetou o garfo num dos bocados do paio e disse:

Em nome do Padre...
este me cabe!

O segundo fez o mesmo, dizendo:

Em nome do Filho...
este comigo!

O soldado vendo um só bocado no prato, agarrou-o, gritando:

Em nome do Espirito Santo...
antes que fique em branco!

E deste modo foi ele quem logrou (= "burló") os três espertalhões.



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O aprendiz de mago


Será que algum desses novos alunos do 1º ano que já estudaram português na escola básica se anima a tentar ler este conto?


O APRENDIZ DE MAGO

Um homem de grandes artes tinha (= "tenía") na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:

– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo, senão morres (si no, mueres").

O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou ("no se acordó") mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:

– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia (= iba") muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:

– Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco falou-lhe ("le habló"):

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.

Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:

– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.

O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:

– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

– Deita fora (= "Tira") o ramo.

Fez-se logo ali uma floresta ("un bosque") muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:

– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.

Disse o cavalo branco:

– Bota fora a pedra.

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:

– Corre, que meu tio agarra-nos.

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos ("llorando mucho"). O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali ("cómo había llegado allí"). O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.

– Pois eu sou capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera ("lo que había dicho"). O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante dormindo.

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:

– Porque choras tanto, minha filha?

– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar ("mientras no vuelva a encontrarlo"), estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada. O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.