Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A bailarina (Cecília Meireles)

Fotografia de Ilja van de Pavert



A BAILARINA

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os ohos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles






Nota. Ficar tonto = "marearse"



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Natal sem sinos (Manuel Bandeira)

Um sino


NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino,
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

Manuel Bandeira




quinta-feira, 31 de outubro de 2019

No meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade)


O poeta brasileiro Carlos Dummond de Andrade recitando o famoso poema No meio do caminho em vídeo interpretado por Miguel Drummond, bisneto dele.

Hoje celebra-se no Brasil o Dia D, dedicado a este poeta.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Teatro apresentado pelos alunos do 7º Ano do Ensino Fundamental, na Semana Literária. Poema de Carlos Drummond Andrade - Tinha uma pedra no meio do caminho. Trabalho da professora Eliana, da E.E. Leopoldina Barros Drumond.



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Convite (José Paulo Paes)

Papagaio - Fotografia de Luísa (L*)


CONVITE

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes



terça-feira, 28 de maio de 2019

"Perto de muita água, tudo é feliz" (João Guimarães Rosa)


Estamos num estado do nordeste brasileiro: Alagoas, e o rio tem o nome de Massagueira. A fotógrafa, Amanda Oliveira, acompanha esta fotografia de uma citação de um romancista brasileiro, João Guimarães Rosa: "Perto de muita água, tudo é feliz." Bonitas palavras, não é?

Ah, e para perceber essa citação, é preciso saber que a palavra tudo também significa "todas as pessoas, todos", como podem ver aqui.




Fotografia de Thais Brito



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

As meninas (Cecília Meireles)




AS MENINAS

Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina.

E Maria
apenas sorria:
"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

uma que se chamou Carolina.

Mas a profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

Cecília Meireles




terça-feira, 23 de outubro de 2018

A onda (Manuel Bandeira)


"Um poema do poeta brasileiro Manuel Bandeira, sobre um fundo de mar de Cassio Toledo."

Ouvimos primeiro com sotaque português e depois, brasileiro.

A ONDA

A onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda


"Aliteração, paronomásia, ritmo! Brincando com a sonoridade e o ritmo das palavras, A Onda é um clássico modernista cheio de movimento."




quarta-feira, 21 de março de 2018

A estrela (Manuel Bandeira)



Esta menina, que se chama Débora Cristina, diz este poema de Manuel Bandeira para nós. Hoje é o Dia Mundial da Poesia.


A ESTRELA

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Manuel Bandeira 








terça-feira, 20 de março de 2018

Um poema visual: A primavera



A primavera começa hoje, dia 20, às 16h. Podem ler em baixo.

"A primavera por si só já é um poema... mas tentamos expressar em palavras e cores as sensações que ela nos traz.

Atividade realizada para a disciplina de Poesia e Canção do curso de Letras da Universidade Feevale, com o professor Me. Leandro Miranda.

A música escolhida é do Ballet O Quebra Nozes, de Tchaikovsky, intitulada Dance of the Reed Flutes"

_______________________________________


O início da primavera em 2018 ocorre a 20 de março, às 16h00.

Esta é a hora do equinócio da primavera, ou seja, o instante exato em que começa essa estação.

Equinócio da Primavera 

Entende-se por equinócio da primavera o momento em que o Sol cruza o plano do equador celeste (a linha do equador terrestre que é projetada na esfera celeste). Quando este acontecimento decorre em março, ele recebe o nome de equinócio da primavera no hemisfério norte. Já no hemisfério sul o equinócio da primavera tem lugar em setembro.

(Calendarr)



segunda-feira, 19 de março de 2018

Para o papai, tudo passa... (Pedro Bandeira)



Hoje é o Dia do Pai. Vamos ouvir esta menina brasileira a dizer um poema...


PARA O PAPAI, TUDO PASSA...

Meu pai é um cara engraçado!
Diz que me põe de castigo
Se eu não fizer a lição.
Só que, quando eu não faço,
Ele vem, com decisão
E com ar sério que ele tem,
E diz “desta vez passa”,
Mas na próxima vez, heim...

Se eu levo tombo e choro,
Ele me pega no colo,
Me embala e fica dizendo:
- Chore não... isso passa...

(Quando eu vou dormir e choro,
Ele me pega no colo,
Me embala e fica dizendo:
- Chore não... isso passa...)

Quando eu vou dormir
E tenho medo do escuro,
Ele me conta uma história,
Diz pra eu fechar os olhos
Que o medo passa.

Ah, eu gosto tanto dele!
E isso não passa.

Pedro Bandeira



sexta-feira, 9 de março de 2018

Conto de fadas para princesas do século 21 (Luís Fernando Veríssimo)


Este conto, que é uma nova versão do encontro entre a princesa e o sapo do conto tradicional, é da autoria do brasileiro Luís Fernando Veríssimo. Cuidado com sapos destes, meninas (ou rãs, tanto faz).


Conto de fadas para princesas do século 21

Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então, a rã pulou para o seu colo e disse:

- Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre…

Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautées, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava:

- Nem morta!


terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Poesia", de Drummond, no Dia D



Esta menina chamada Maria Eduarda diz para nós um poema de um poeta do país dela, o Brasil: Carlos Drummond de Andrade. Ele nasceu no dia 31 de outubro e no Brasil celebram neste dia o Dia D (D de Drummond).


POESIA

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade




terça-feira, 17 de outubro de 2017

Adriana Calcanhotto canta 'A casa' para os mais pequenos


Lançamento do livro "Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira", organizado e ilustrado pela cantora Adriana Calcanhotto e lançado pela editora Casa da Palavra. Centro Dragão de Arte e Cultura, dia 24 de Julho de 2013.


A canção é para criancinhas, mas espero que os alunos do 1 º ano e do 2º ano gostem. E podem mostrar aos irmãos mais pequenos...

Esta música apareceu aqui pela primeira vez em 2010, cantada pelo grupo Boca Livre (o som é melhor aí).  A letra é um poema do poeta Vinícius de Moraes.


A CASA

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada

Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão

Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede

Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali

Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero.




terça-feira, 21 de março de 2017

Cecília Meireles para o Dia Mundial da Poesia



Hoje, dia 21 de março, celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Nós vamos ler, e ouvir, dito pela Ana Lice, este poema da brasileira Cecília Meireles. Espero que gostem.


MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles







quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Irene no céu (Manuel Bandeira)



IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira








segunda-feira, 16 de maio de 2016

A conjunção OU

Poema de Cecília Meireles cantado por Lena d'Água


Vamos ver o que nos diz o dicionário Priberam da conjunção ou, que muitos alunos escrevem à espanhola ("Queres isto o isso", por exemplo) e o que temos, neste caso, é o artigo definido português, o que não faz sentido na frase, mas não a  conjunção ou:


ou

(latim aut)

1. Indica alternativa ou opcionalidade (ex.: ver um filme ou ler um livro).

2. Indica consequência derivada da irrealização de algo (ex.: despacha-te ou não vamos chegar a tempo).








quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Bilhete (Mário Quintana)



Esta menina chama-se Samara Hannah e lê para nós um breve poema do poeta brasileiro Mário Quintana. Fiquem a saber que bilhete aqui quer dizer "Escrito curto, em forma de carta sem cerimónia", não tem nada a ver com dinheiro, cuidado!

Aviso: o som não é bom!


Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

No descomeço era o verbo (Manoel de Barros)

Fotografia de Luis A. Florit

Vamos deixar que as palavras nos levem com elas, nos arrastem... Alguém seria capaz de escrever um poema? Ou são já "muito velhos"? Reparem nas palavras do poeta brasileiro Manoel de Barros:


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.





sábado, 31 de outubro de 2015

Brincar na rua (Carlos Drummond de Andrade )



Neste dia 31 de outubro de 1902 nasceu o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade e, como muita gente que gosta de poesia no Brasil e noutras partes do mundo faz, em todos os blogues desta escola recordamo-lo neste dia (e não só). Como? Cá estamos a ler os seus versos, versos especialmente dedicados para vocês:


Brincar na rua

Tarde?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
e já estão chamando da janela:
É tarde.

Ouço sempre este som: é tarde, tarde.
A noite chega de manhã?
Só existe a noite e seu sereno?

O mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe.
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde.

Carlos Drummond de Andrade






quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Uma quadra de desafio

Um boi na serra (Fotografia de Miguel Pinto)


Uma quadra de desafio brasileira, anónima, é claro:

Lá em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa,
passa minha namorada.


O que é uma quadra de desafio? Uma das definiçoes de desafio é "situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando." E cantar ao desafio é cantar à desgarrada. É complicado? Vamos ver:

A desgarrada é uma cantiga popular em que os cantadores vão improvisando, desafiando e respondendo um ao outro, normalmente ao som de concertina. Para além de "Desgarradas", também recebem denominações de Cantares ao Desafio, Cantigas ao Desafio, Cantigas à Desgarrada, etc.