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quinta-feira, 1 de junho de 2017

A girafa que comia estrelas (José Eduardo Agualusa)









A GIRAFA QUE COMIA ESTRELAS

Lá estás tu outra vez com a cabeça nas nuvens! – ralhava a mãe. E era verdade. Aos cinco anos, Filipa já era a mais alta de todas as girafas da savana. Era tão alta que, quando levantava o pescoço e se punha na pontinha dos pés, a cabeça dela desaparecia entre as nuvens. A mãe da Filipa, Dona Mariquita, não gostava daquilo:

- As nuvens estão frias, Filipa! Olha que podes apanhar uma gripe.

O pior que pode acontecer a uma girafa é ficar constipada. Primeiro, porque, quando espirram, correm o risco de perder a cabeça (a cabeça salta com a força do espirro). Depois, porque é difícil conseguir um cachecol capaz de cobrir pescoços tão compridos. Filipa, porém, gostava de andar com a cabeça nas nuvens – queria ver os anjos. A avó Rosália, mãe de Dona Mariquita, dissera-lhe que os anjos dormem nas nuvens. Também lhe dissera que, quando as pessoas morrem, se transformam em anjos. Dissera-lhe isto pouco antes de morrer. Por isso, Filipa passava o dia com a cabeça nas nuvens. À noite, comia estrelas. Enquanto as outras girafas dormiam, Filipa subia ao morro mais alto da savana, levantava o pescoço e comia estrelas. As estrelas ardiam um pouco na garganta, mas eram doces e macias e sabiam a pêssego. Ao contrário do que seria de supor, a noite não ficava mais vazia por causa disso. À medida que Filipa comia estrelas, outras nasciam, novinhas em folha, brilhando ainda mais do que as antigas. Assim, de certa maneira, ela renovava a noite.

(Isto é um excerto do conto)

José Eduardo Agualusa


José Eduardo Agualusa (1960) é um escritor angolano de ascendência portuguesa e brasileira.




sexta-feira, 31 de maio de 2013

Umas palavras de Mia Couto, Prémio Camões 2013



No mundo da literatura em língua portuguesa, o Prémio Camões é como o Prémio Cervantes no mundo da literatura em língua espanhola, quer um, quer outro, dos dois lados do Oceano Atlântico. São os prémios mais importantes em ambas as línguas românicas.

Mia Couto é um escritor moçambicano que acaba de ganhar o Prémio Camões deste ano 2013. Para outro dia publicarei um trecho de algum conto dele. Por enquanto, temos aqui estas palavras


Nota
A estrada, "El camino"
Enquanto a gente sonhar... "Mientras soñemos..."



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"quando o melaço" (Arlindo Barbeitos)


Depois de ler estes versos, até dá vontade de provar, não acham?

quando o melaço
escorre pelas pontas sem forma
quando o aroma do mel quente atrai as abelhas
quando as manchas pretas
no fundo amarelo
lembram o leopardo

então
come-se a banana devagarinho
lambendo os dedos depois

Arlindo Barbeitos



Arlindo Barbeitos é um poeta angolano. A sua poesia tem reminiscências da poética tradicional africana, de tradição oral, e das poesias chinesa e japonesa.


Nota. O melaço é resultante da etapa de centrifugação ou de decantação, no processo de fabricação de açúcar (em espanhol é "melaza").



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Outra vez: "pouca terra, pouca terra..."

Um comboio em Angola (1969)

Vocês não sabem o que é exatamente pouca terra, pouca terra... em português. Vimo-lo aqui, quando ainda não estavam nesta escola. Agora encontrei um excerto de um romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que aparece esta onomatopeia. Mas antes, vamos clicar no link.


Um profundo clamor de metais arrancou-me à leitura. Não me tinha dado conta de que a estrada corria paralela ao camino-de-ferro. O comboio passou, muito devagar, pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra, num longo queixume de seda e fumo. Um homem moreno, bronzeado, numa das janelas do vagão-restaurante, acenou para mim. Ergui a mão e retribuí o aceno.