Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Chuva (Nuno Júdice)



CHUVA

Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

Nuno Júdice

Um Canto na Espessura do Tempo (1992)



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Azul ar (Alexandre O'Neill)

Fotografía de Rosa Pomar


AZUL AR

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu

Alexandre O´Neill



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Tudo numa semana (Luísa Ducla Soares)



TUDO NUMA SEMANA

Segunda-feira nasci,
na terça fui para a escola,
na quarta estava casado,
na quinta toquei viola,

na sexta tive três filhos,
no sábado envelheci,
no domingo veio a morte,
dei-lhe um estalo, estou aqui.

Luísa Ducla Soares



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A bailarina (Cecília Meireles)

Fotografia de Ilja van de Pavert



A BAILARINA

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os ohos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles






Nota. Ficar tonto = "marearse"



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Eu bem vi nascer o Sol

Nascer do Sol no Alentejo. - Serpa. Fotografia de Luis MP Gonçalves


Eu bem vi nascer o Sol
duma maçã vermelhinha
nunca pensei que nascesse
de coisa tão pequenina.

Eu bem vi nascer o Sol
num canivete de prata
nunca pensei que nascesse
de coisinha tão barata.

Eu bem vi nascer o Sol
nas areias do Mondego
enganei-me: foi a Lua
que o Sol não nasce tão cedo.

Alice Vieira



quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Aprender poemas de cor (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Se as crianças aprendessem poemas de cor em pequenas, se fosse uma parte integrante do ensino e até, se elas tivessem de dizer um poema de cor para serem admitidas a qualquer universidade, as pessoas passavam a falar melhor. Porque falar é próprio de todas as pessoas, não é só do médico, do engenheiro e onde se aprende a falar realmente é na poesia.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Entrevista ao jornal Contemporâneo em 15 de Março de 1989


Busto de Deméter, deusa grega das colheitas



 
OS DEUSES

Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.




FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Natal sem sinos (Manuel Bandeira)

Um sino


NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino,
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

Manuel Bandeira




Cavalinho, cavalinho (Fausto)


O poema é de Matilde Rosa Araújo e a música e a voz são de Fausto:


CAVALINHO, CAVALINHO

Cavalinho, cavalinho
Que baloiça e nunca tomba;
Ao montar meu cavalinho
Voo mais do que uma pomba!

Cavalinho, cavalinho,
De madeira mal pintada:
Ao montar meu cavalinho
As nuvens são minha estrada!

Cavalinho, cavalinho
Que meu pai me ofereceu:
Ao montar meu cavalinho
Toco as estrelas do céu!

Cavalinho, cavalinho
Já chegam meus pés ao chão:
Ao montar meu cavalinho
Que triste meu coração!…

Cavalinho, cavalinho
Passou tempo sem medida:
Tu continuaste baixinho
E eu tornei-me tão crescida.

Cavalinho, cavalinho
Por que não cresces comigo?
Que tristeza, cavalinho,
Que saudades, meu Amigo!

Matilde Rosa Araújo

De O Livro da Tila




sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A noite rimada (Almada Negreiros)

Noite na montanha (Fotografia de Ars Clicandi)


A NOITE RIMADA 

Pela serra ao luar
ia um menino sozinho
sem sono pra se deitar.

Ia o menino a pensar
porque seria ele só
sem sono pra se deitar.

Ia o menino a pensar
que há tanto por pensar
e a cidade a descansar.

Ia o menino a pensar
porque seria ele só
sem sono pra se deitar.

Quem dorme sem ter pensado
deve ter sono emprestado
não é sono bem ganhado.

Ia o menino a pensar
como poder arranjar
muita força pra pensar

Ia o menino a arranjar
muita força pra pensar
o próprio sonho ganhar

Almada Negreiros



terça-feira, 19 de novembro de 2019

O pastor (Eugénio de Andrade)



O PASTOR

Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

Eugénio de Andrade






quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Poema verde (Luísa Ducla Soares)

Fotografia de Alice Diaz


POEMA VERDE

Verdes são os campos,
Verdes os palmares,
Verdes papagaios
Voam pelos ares.

Verdes são os lagos
Mais os oceanos,
Verdes são as algas
E os verdes anos.

Verdes são as sombras,
Verdes são as rãs,
Verdes primaveras
E verdes maçãs.

Verde é a floresta,
Verde é o bilhar
Mas ainda mais verde
É o teu olhar.

Luísa Ducla Soares




quinta-feira, 31 de outubro de 2019

No meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade)


O poeta brasileiro Carlos Dummond de Andrade recitando o famoso poema No meio do caminho em vídeo interpretado por Miguel Drummond, bisneto dele.

Hoje celebra-se no Brasil o Dia D, dedicado a este poeta.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Teatro apresentado pelos alunos do 7º Ano do Ensino Fundamental, na Semana Literária. Poema de Carlos Drummond Andrade - Tinha uma pedra no meio do caminho. Trabalho da professora Eliana, da E.E. Leopoldina Barros Drumond.



segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Lengalenga do senhor vento (Maria Alberta Menéres)


Mais uma vez, Maria Alberta Menéres, connosco.

Definição de lengalenga na Infopédia:

1. texto transmitido de geração em geração, constituído por palavras que geralmente rimam e com muitas repetições, conferindo-lhe um carácter musical que facilita a rápida memorização

2. narrativa monótona ou fastidiosa

E mais uma definição, no nosso blogue: "Para jogar aos polícias e ladrões: Aniki-Bébé"


LENGALENGA DO SENHOR VENTO

Andava o senhor vento
Um dia passeando
Encontrou a formiga:
- Senhor vento, que força!
Lá caí de barriga!

Andava o senhor vento
Pé ante pé na vinha
Quando avistou um cão:
- Senhor vento, que força!
fui de focinho ao chão!

Andava o senhor vento
A brincar pela rua
Quando viu uma cereja:
- Senhor vento, que força!
Não empurre que aleija!

Então o senhor vento
Foi para o alto do monte
E encontrou um moinho:
- Senhor vento, que bom!
Eu estava tão sozinho.

Maria Alberta Menéres



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Quem é Manuel António Pina?


Para saber um bocado sobre Manuel António Pina (Sabugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012), jornalista, escritor, poeta, de quem há vários poemas no blogue.


"A sopa de letras"

"Coisas que não há que há"

"A cabeça no ar"



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Barqueiro, deita o barco ao rio...




Barqueiro, deita o barco ao rio,
Barqueiro, deita o barco ao mar,
mas olha que o barco vira,
lá no meio do Mira
e eu não sei nadar.


(Lido no blogue O mar no cancioneiro popular)



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

"Pensar de pernas para o ar..." (Manuel António Pina)



Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina


Do seu livro O país das pessoas de pernas para o ar



Fotografia de Mark Cohen




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Não quero, não (Eugénio de Andrade)

Correndo a cavalo, de Eduardo Hanazaki


NÃO QUERO, NÃO

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Eugénio de Andrade


Podemos ouvir o poema em conta-me um conto que não contasses a ninguém.



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Convite (José Paulo Paes)

Papagaio - Fotografia de Luísa (L*)


CONVITE

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes



sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sou

Museu da Língua Portuguesa, Estação da Luz, S. Paulo, Brasil


Fotografia e textos escolhidos por Vi.


Sou Sou Sou Sou

Ser ou não ser... eis a questão.

William Shakespeare


Talvez não ser é ser sem que tu saibas

Pablo Neruda


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Versos de Fernando Pessoa no seu aniversário

Fernando Pessoa em 1928

No dia 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o poeta Fernando Pessoa, um poeta que foi "muitos poetas". Eu explico.

Recordamo-lo com a primeira estrofe de um soneto, onde fala do menino que foi e do adulto de 45 anos que nesse momento era.

Estes versos são especialmente dedicados para o Alberto, da turma de 2º A. Ele sabe porquê. E já agora, esta tirinha de Beto, "Morro de medo".


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.


O menino Fernando Pessoa em 1891, com três anos