Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sophia de Mello Breyner Andresen - "A menina do mar" (um conto em 4 actos)



«A Menina do Mar» é o primeiro conto de Sophia para a infância e foi editado, pela primeira vez, em 1958.

Tendo a praia como cenário, este conto revela-nos uma história de amizade entre um rapaz e a Menina do Mar. Cada um vive no seu mundo, o rapaz na terra e a menina no mar, mas a curiosidade de ambos leva-os a querer partilhar essas diferenças: a menina fica a saber o que é o amor, a saudade e a alegria; o rapaz aceita viver com ela no fundo do mar.

(Revista Visao Júnior)

texto http://www.cienciaviva.pt/oceanos/files/Menina_do_Mar(1).pdf


Música de Fernando Lopes-Graça.
Vozes de Eunice Muñoz, Francisca Maria, António David, e Luís Horta.
Direcção de Artur Ramos.



Chuva (Nuno Júdice)



CHUVA

Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

Nuno Júdice

Um Canto na Espessura do Tempo (1992)



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Azul ar (Alexandre O'Neill)

Fotografía de Rosa Pomar


AZUL AR

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu

Alexandre O´Neill



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Tudo numa semana (Luísa Ducla Soares)



TUDO NUMA SEMANA

Segunda-feira nasci,
na terça fui para a escola,
na quarta estava casado,
na quinta toquei viola,

na sexta tive três filhos,
no sábado envelheci,
no domingo veio a morte,
dei-lhe um estalo, estou aqui.

Luísa Ducla Soares



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Eu bem vi nascer o Sol

Nascer do Sol no Alentejo. - Serpa. Fotografia de Luis MP Gonçalves


Eu bem vi nascer o Sol
duma maçã vermelhinha
nunca pensei que nascesse
de coisa tão pequenina.

Eu bem vi nascer o Sol
num canivete de prata
nunca pensei que nascesse
de coisinha tão barata.

Eu bem vi nascer o Sol
nas areias do Mondego
enganei-me: foi a Lua
que o Sol não nasce tão cedo.

Alice Vieira



quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Aprender poemas de cor (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Se as crianças aprendessem poemas de cor em pequenas, se fosse uma parte integrante do ensino e até, se elas tivessem de dizer um poema de cor para serem admitidas a qualquer universidade, as pessoas passavam a falar melhor. Porque falar é próprio de todas as pessoas, não é só do médico, do engenheiro e onde se aprende a falar realmente é na poesia.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Entrevista ao jornal Contemporâneo em 15 de Março de 1989


Busto de Deméter, deusa grega das colheitas



 
OS DEUSES

Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.




FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Minha rica lã (António Torrado)

Fotografia de Leonardo Aragão


MINHA RICA LÃ

Esta ovelha está muito triste.

Veio o tosquiador e rape-rape-rape deixou-a sem pêlo.

Ela que tanto se orgulhava dos seus caracóis, ela tão cheia de si como uma senhora de casaco de peles, ela tão pesada e repolhuda, ficar assim por metade, nuazinha, envergonhada e tiritante, era caso de meter dó.

— Quero a minha lã — balia a ovelha tosquiada. Foi ter com o pastor.

— Eu não tenho culpa — disse-lhe ele. — Quem arrecadou a tua lã foi o cardador.

A ovelha foi ter com o cardador que se encarrega de limpar, separar e desfibrar a lã tosquiada.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não é da minha conta — disse o cardador. — A fiandeira levou toda a cardação.

A ovelha foi ter com a fiandeira que torce os fios, de maneira a que fiquem consistentes e de espessura uniforme.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não a tenho comigo — disse a fiandeira. — O tecelão levou o novelo todo.

A ovelha foi ter com o tecelão que cruza e entrelaça os fios no tear, para formar o tecido.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não está nas minhas mãos — disse o tecelão. — O dono da fábrica de confecções levou a peça de fazenda com ele.

A ovelha foi ter à fábrica de confecções, onde são cortadas, moldadas e cosidas as fazendas, vindas da fábrica de tecelagem.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha ao capataz da fábrica de confecções.

— Já não é comigo — disse o capataz. — As costureiras fizeram casacos de lã, que os lojistas compraram.

A ovelha dera voltas e voltas. Estava cansada. Perdera muito tempo, à procura da sua rica lã. De um lado para outro demorara meses, na sua busca. O que uma ovelha passa, quando se lhe mete uma ideia na cabe-ça. Mas não era hora de desistir.

Foi ter a uma loja de roupas.

Atendeu-a um caixeiro muito delicado:

— Vossa Excelência o que deseja?

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Vossa Excelência deseja a lã da mesma cor daquela que usa ou tem outra preferência? — perguntou o caixeiro.

Só então a ovelha, ao passar os olhos por um dos espelhos da loja, é que reparou em si. Estava toda coberta de lã, tal e qual como antes de ter sido tosquiada.

— Afinal já estou servida, obrigada — disse a ovelha, mais tranquila. E saiu da loja com o seu próprio carrego de lã.

https://contadoresdestorias.wordpress.com/2009/11/06/minha-rica-la-ant-torrado/


(Lido em Histórias em Português)


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Coisas que não há que há (Manuel António Pina)


Este poema de Manuel António Pina (1943 - 2012), jornalista e escritor português, já foi publicado no blogue em 2015, mas achei este vídeo e vale a pena que vocês conheçam estes versos: ouvimos e lemos ao mesmo tempo.

Manuel António Pina foi um grande poeta e dedicou parte da sua obra às crianças e aos mais jovens.

(Ágora Gaia)


Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há.
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...

Manuel António Pina


"A sopa de letras" é outro poema de Manuel António Pina no nosso blogue.





Cavalinho, cavalinho (Fausto)


O poema é de Matilde Rosa Araújo e a música e a voz são de Fausto:


CAVALINHO, CAVALINHO

Cavalinho, cavalinho
Que baloiça e nunca tomba;
Ao montar meu cavalinho
Voo mais do que uma pomba!

Cavalinho, cavalinho,
De madeira mal pintada:
Ao montar meu cavalinho
As nuvens são minha estrada!

Cavalinho, cavalinho
Que meu pai me ofereceu:
Ao montar meu cavalinho
Toco as estrelas do céu!

Cavalinho, cavalinho
Já chegam meus pés ao chão:
Ao montar meu cavalinho
Que triste meu coração!…

Cavalinho, cavalinho
Passou tempo sem medida:
Tu continuaste baixinho
E eu tornei-me tão crescida.

Cavalinho, cavalinho
Por que não cresces comigo?
Que tristeza, cavalinho,
Que saudades, meu Amigo!

Matilde Rosa Araújo

De O Livro da Tila




sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A noite rimada (Almada Negreiros)

Noite na montanha (Fotografia de Ars Clicandi)


A NOITE RIMADA 

Pela serra ao luar
ia um menino sozinho
sem sono pra se deitar.

Ia o menino a pensar
porque seria ele só
sem sono pra se deitar.

Ia o menino a pensar
que há tanto por pensar
e a cidade a descansar.

Ia o menino a pensar
porque seria ele só
sem sono pra se deitar.

Quem dorme sem ter pensado
deve ter sono emprestado
não é sono bem ganhado.

Ia o menino a pensar
como poder arranjar
muita força pra pensar

Ia o menino a arranjar
muita força pra pensar
o próprio sonho ganhar

Almada Negreiros



terça-feira, 26 de novembro de 2019

Exageros (Mário-Henrique Leiria)



EXAGEROS

O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:

– Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento.

Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.

Mário-Henrique Leiria 





terça-feira, 19 de novembro de 2019

O pastor (Eugénio de Andrade)



O PASTOR

Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

Eugénio de Andrade






quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Poema verde (Luísa Ducla Soares)

Fotografia de Alice Diaz


POEMA VERDE

Verdes são os campos,
Verdes os palmares,
Verdes papagaios
Voam pelos ares.

Verdes são os lagos
Mais os oceanos,
Verdes são as algas
E os verdes anos.

Verdes são as sombras,
Verdes são as rãs,
Verdes primaveras
E verdes maçãs.

Verde é a floresta,
Verde é o bilhar
Mas ainda mais verde
É o teu olhar.

Luísa Ducla Soares




quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Flor (Almada Negreiros)


Turma dos sete instrumentos


Lembram-se de quando vocês começavam a pintar qualquer coisa com um lápis ou com os lápis de cor? Vamos ler uma história do artista e escritor português Almada Negreiros.


FLOR

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros




segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Lengalenga do senhor vento (Maria Alberta Menéres)


Mais uma vez, Maria Alberta Menéres, connosco.

Definição de lengalenga na Infopédia:

1. texto transmitido de geração em geração, constituído por palavras que geralmente rimam e com muitas repetições, conferindo-lhe um carácter musical que facilita a rápida memorização

2. narrativa monótona ou fastidiosa

E mais uma definição, no nosso blogue: "Para jogar aos polícias e ladrões: Aniki-Bébé"


LENGALENGA DO SENHOR VENTO

Andava o senhor vento
Um dia passeando
Encontrou a formiga:
- Senhor vento, que força!
Lá caí de barriga!

Andava o senhor vento
Pé ante pé na vinha
Quando avistou um cão:
- Senhor vento, que força!
fui de focinho ao chão!

Andava o senhor vento
A brincar pela rua
Quando viu uma cereja:
- Senhor vento, que força!
Não empurre que aleija!

Então o senhor vento
Foi para o alto do monte
E encontrou um moinho:
- Senhor vento, que bom!
Eu estava tão sozinho.

Maria Alberta Menéres



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Quem é Manuel António Pina?


Para saber um bocado sobre Manuel António Pina (Sabugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012), jornalista, escritor, poeta, de quem há vários poemas no blogue.


"A sopa de letras"

"Coisas que não há que há"

"A cabeça no ar"



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

"Pensar de pernas para o ar..." (Manuel António Pina)



Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina


Do seu livro O país das pessoas de pernas para o ar



Fotografia de Mark Cohen




terça-feira, 8 de outubro de 2019

"A pintura não é mais do que a literatura feita com pincéis..." (José Saramago)

Obra de Júlio Pomar, pintor português


A pintura não é mais do que a literatura feita com pincéis [...]. A humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever.

José Saramago

No seu livro A História do Cerco de Lisboa.


José Saramago ( 1922 — 2010) foi um escritor português.

Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

(Wikipédia)








segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Não quero, não (Eugénio de Andrade)

Correndo a cavalo, de Eduardo Hanazaki


NÃO QUERO, NÃO

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Eugénio de Andrade


Podemos ouvir o poema em conta-me um conto que não contasses a ninguém.



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Versos de Fernando Pessoa no seu aniversário

Fernando Pessoa em 1928

No dia 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o poeta Fernando Pessoa, um poeta que foi "muitos poetas". Eu explico.

Recordamo-lo com a primeira estrofe de um soneto, onde fala do menino que foi e do adulto de 45 anos que nesse momento era.

Estes versos são especialmente dedicados para o Alberto, da turma de 2º A. Ele sabe porquê. E já agora, esta tirinha de Beto, "Morro de medo".


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.


O menino Fernando Pessoa em 1891, com três anos