Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa

sexta-feira, 23 de março de 2012

O cego e o moço

 Pintura de Goya

Será que algum aluno, depois de ler este conto, vai dizer-me se conhece alguma história muito parecida na literatura espanhola? Ou sera que ainda é cedo para perguntar isso?


O CEGO E O MOÇO

Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço:

– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão. 

– Pela minha salvação, que não deram senão pão. 

 – Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio! 

E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe: 

– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:

– Ó rapaz do diabo! Que te racho. 

Diz-lhe ele: 

Pois cheira-lhe o pão a linguiça, 
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?