Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa

sábado, 20 de novembro de 2010

As bocas do mundo

Fotografia de João Madureira


AS BOCAS DO MUNDO

Era uma vez um homem muito velho que tinha na sua companhia um neto, filho de uma sua filha já falecida, como falecido era o marido desta. Teve o velho de ir a uma feira vender um jumento e como o neto era rapazola muito turbulento, não o quis deixar sozinho em casa, e levou-o consigo. O jumento era já adiantado em anos e o velho para não o estropiar resolveu levá-lo adiante, caminhando a pé avô e neto. Passaram a um lugar onde estava muita gente a brincar na estrada.

– Olhem aqueles brutos! Vão a pé atrás do burro que se não dá da tolice dos donos.

O velho disse ao neto que se pusesse em cima do burro.

Mais adiante passaram próximo doutros sujeitos que se puseram a dizer:

– O mariola do garoto montado, e o velho a pé; o que um tem de esperto tem o outro de bruto. O velho então mandou apear o neto e ele montou- se no burro.

Mais adiante começaram a gritar:

– Olhem o velho se é manhoso! A pobre da criança a pé e ele repimpado no burro.

– Salta para cima do burro – ordenou o velho ao neto.

O garoto não esperou que o avô repetisse a ordem e lá foram os dois sobre o jumento. Andaram assim alguns passos e logo viram muita gente sair-lhes à estrada, cheia de indignação e gritando ameaçadora:

– Infames! Criminosos! Canalhas! Matar o animalzinho com o peso de dois alarves, podendo ir a pé.

O velho e a criança foram obrigados a descer do burro.

Então disse o avô ao neto:

– É para que saibas o que são as línguas do mundo: preso por ter cão e preso por o não ter.


José Gomes Ferreira, Contos Tradicionais Portugueses