Bairro de Alfama e Rio Tejo em Lisboa

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dois tranglomanglos



O que será o tranglomanglo (ou tanglomanglo, ou tangomangro, ou tangromangro, ou trangromango, ou tângoro-mângoro, ou tângor-mangro, ou tangro-mangro)?

Esta palavra, que significa «bruxedo», «sortilégio», «malefício» e é usada na expressão dar o tranglomango (mais ou menos, como "echarle a alguien mal de ojo") é de origem provavelmente onomatopaica.

Leiam estes versinhos e vejam a história desta família, coitada.


Minha mãe teve dez filhos,
todos dez dentro de um pote:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão nove.

Desses nove que ficaram
foram amassar biscoito:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão oito.

Desses oito que ficaram,
foram pentear o tapete:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão sete.

Desses sete que ficaram
foram esperar os reis:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão seis.

Desses seis que ficaram
foram depenar um pinto:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão cinco.

Desses cinco que ficaram
foram depenar um pato:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão quatro.

Desses quatro que ficaram
foram matar uma rês:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão três.

Desses três que ficaram
foram dar comida aos bois:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão dois.

Desses dois que ficaram
foram matar um peru:
deu o tranglomanglo neles,
e não ficou senão um.

E esse um que ficou
foi ver amassar o pão,
deu o tranglomanglo nele,
e acabou-se a geração.


(Texto inicial adaptado do Ciberdúvidas)


E agora podemos ler a versão escrita pelo poeta português Mário Cesariny de Vasconcelos, e depois ouvir também estes versos recitados pelo grande ator português Mário Viegas:






Era uma vez dez meninas
de uma aldeia muito probe.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão nove.

Era uma vez nove meninas
que só comiam biscoito.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão oito.

Era uma vez oito meninas
em terras de dom Esparguete
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão sete.

Era uma vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão seis.

Era uma vez seis meninas
em landas de Charles Quinto.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão cinco

Era uma vez cinco meninas
em um triângulo equilatro.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão quatro.

Era uma vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão três.

Era uma vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão duas.

Era uma vez duas meninas
ante um home todo espuma.
Deu um tranglomanglo nelas
transformaram-se em só uma.

Era uma vez uma menina
terrada em terral (coval) mui fundo.
Deu um tranglomanglo nela
voltaram as dez ao mundo.

Mário Cesariny de Vasconcelos